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domingo, 6 de maio de 2012

O Código Da Vinci, de Dan Brown


Acho que já estou preparado para falar de Dan Brown mais uma vez. Quando é o nome deste autor que está em pauta, cabe ao resenhista apenas saber que está pisando em um campo minado. Um dos autores mais controversos da atualidade, seus livros têm um público-alvo bem específico, mas mesmo assim conseguem gerar opiniões diferentes. Ou gosta ou não gosta, não existe um meio termo. Antes de falar deste livro em específico, vou abranger as obras de Brown por um todo e explicar a quem nunca leu o que te espera ao abrir a primeira página de um de seus romances.

Primeiramente, há duas coisas para se saber: primeiro, todos os livros dele são guias de viagens narradas. Da beleza artística de Paris à arquitetura majestosa de Washington D. C., Brown cria uma trama meticulosa (todos os livros têm o mesmo sistema de narrativa: conforme o tempo passa, os personagens vão descobrindo novas pistas e se enrolando cada vez mais em uma teia de intrigas) repleta de curiosidades - e essa é a segunda coisa a se saber - sobre temas polêmicos, com fraternidades antigas, segredos e simbolismos. 

Antes de qualquer reboliço, é indispensável afirmar que os livros de Brown são feitos para leigos. Pois sim, esse é o público-alvo. Mas não me interprete mal, eu também me encaixo nesta lista. Em matéria de simbologia, poucos no mundo não são leigos (tanto é que a prova está na estimativa de vendas de seus livros). O Código da Vinci e seus parentes são a fórmula de Dan Brown para ganhar dinheiro ao divulgar seu conhecimento como historiador em uma trama fictícia que, querendo ou não, acaba te conquistando se você tem o interesse pelo assunto. Afinal, não é interessante saber que a pirâmide construída no pátio do Museu do Louvre foi feita pelo presidente francês conhecido como Esfinge (porque ele inundou a cidade com símbolos egípcios) com 666 vidraças; o "número do Satã", bem na capital da França, um dos berços do cristianismo no mundo? Ou que a Igreja Católica erradicou os símbolos de deuses pagãos transformando-os em símbolos demoníacos (como o Tridente de Poseidon e o pentagrama)?

Aliás, são essas curiosidades e a astúcia de Brown em bater de frente com congregações poderosas, como a Opus Dei e a Maçonaria, que fazem o livro, porque, se dependesse de seus personagens, eles não venderiam nem em banca de rodoviária. Robert Langdon, que faz o papel de Dan Brown - um simbologista de Harvard - é um dos personagens mais sem sal que eu já tive o desprazer de conhecer. Pra completar, Dan Brown, assim como faz nos outros dois livros, insere uma mulher cujo parente próximo morre e está sedenta pela verdade, aqui chamada Sophie, cujo avô, Jacques, é assassinado dentro do Museu do Louvre. Ao menos em O Código da Vinci ele insere um dos melhores personagens que ele já criou: o pesquisador Leigh Teabing, que tem um papel importantíssimo na trama.

Resumindo, como sempre o faço, O Código da Vinci é como qualquer outro livro de Dan Brown. É um livro comercial, o que não impossibilita o prazer de uma boa leitura, com uma narrativa que segue à risca o estilo do escritor. A razão de tanto alvoroço ao redor desta obra, e o motivo pelo qual virou best-seller mundial, é que consegue atingir o público-alvo (os leigos e curiosos) prometendo falar sobre um dos segredos mais bem guardados da humanidade: a relação de Jesus Cristo com Maria Madalena e o segredo do Santo Graal. Se é verdade ou não, só saberemos caso o tal Priorado de Sião resolva abrir a boca, porque se você espera que Dan Brown faça isso, pode esquecer, isso está bem longe da capacidade dele e de qualquer um de nós.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Arma Escarlate, de Renata Ventura


Como eu já disse milhares de vezes aqui no blog, cuidado é sempre pouco quando for criar uma história de fantasia. O autor tem que ter maturidade suficiente para levar seu mundo ao público sem exagero algum; e Renata Ventura consegue fazer isto baseando-se na grandiosa obra de Rowling: Harry Potter. Já entrando no assunto, vi alguns comentários rolando pelos fóruns da internet de pessoas que não leram o livro e o rotulam como uma cópia descarada da trama de Potter. Porém, o que apenas aqueles que leram as entrevistas de Renata Ventura ou o prefácio de seu livro A Arma Escarlate sabem é que a escritora sentiu-se no livre-arbítrio de criar uma escola de bruxaria brasileira quando leu uma entrevista de Rowling, que dizia que qualquer um poderia fazê-lo. Ventura é, antes de tudo, uma fã de Harry Potter, e, na verdade, faz de tudo para que suas criações se afastem ao máximo das de Rowling (porque aí sim entram em pauta os direitos autorais da autora britânica). 

E é aí que conhecemos a mente criativa de Renata. Nada de basiliscos, horcruxes, lordes das trevas ou animagos (embora haja inúmeras referências a Potter, como a morte de Dumbledore e dementadores, que ela chama de dementores). A escritora brasileira opta por Mula-Sem-Cabeça, Curupira, Candomblé (uma religião derivada da África com muitos seguidores no Brasil) e feitiços em línguas indígenas. Mas o melhor da obra é que ela não mostra apenas a beleza da Cidade Maravilhosa e a existência de uma escola de bruxaria escondida em baixo da estátua do Cristo Redentor. Renata Ventura também destaca todos os podres de nosso país. Como ela mesma diz, o jeitinho brasileiro, a malandragem; que também não poderiam faltar em uma escola tupiniquim - mesmo que esta trate de educar jovens bruxos. Há a injustiça (na forma do Conselho da escola), a violência (o protagonista vive na favela Santa Marta em 1997, quando ela ainda era chefiada pelos bandidos), a desorganização (os materias extraviados são uma ótima prova disso) e a diferença social (a versão do Saara para a sociedade bruxa é excelente!). Mas ainda assim, vemos um pequeno grupo de jovens, conhecidos como pixies, que vão contra todo esse sistema sem temer nada ou ninguém. Mas nada é tão genial em A Arma Escarlate quanto o tema das drogas - do tráfico ao vício. E o melhor é que Renata Ventura consegue encaixar esse tema tão delicado em um mundo fictício maestralmente.

Como se já não bastasse, há personagens cativantes (tenho certeza que irá se identificar com algum), uma trama cheia de reviravoltas e surpresas e um final que abre totalmente para uma sequência. A Arma Escarlate oferece uma leitura que te pega e não solta, com temas que nos fazem refletir. Uma releitura fiel ao Brasil em que vivemos, que merece uma continuação. Estou na espera, Renata.

Obs.: A Cafeteria da Esquina foi o primeiro blog a entrevistar a autora. Clique aqui para ler.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Guerra dos Tronos | George R. R. Martin



Muita intriga e reviravolta com personagens fascinantes e misteriosos. É assim que eu descrevo o primeiro livro da Saga As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. O escritor americano consegue desenvolver a trama sem dificuldade, e sempre temperando-a com cenas quentes, assassinatos, humor negro e duelos. Mas o melhor de tudo é que ele preenche tudo isso com diversos tipos de personagens (tenho certeza que vai se identificar com algum) e cenários fantásticos e exóticos (desde o luxo do castelo real ao frio de Winterfell e o clima sombrio que toma conta da Muralha). O verdadeiro charme do livro está na divisão de capítulos. Não temos frases no topo de cada início de capítulo, e sim nomes dos oito personagens principais do enredo (e são classificados assim exatamente por isso). Nos capítulos com o nome de Catelyn, por exemplo, conta-se a história à partir do que a personagem Catelyn presencia, mas sempre narrado em terceira pessoa. E Martin consegue correr com a trama de maneira prática, sem que isso se torne um grande obstáculo (o que aconteceria se fosse um escritor desatento) para o desenvolvimento do livro. Na verdade, este é um dos grandes diferenciais na construção da obra.

Após Ned Stark, Lorde de Winterfell, receber o recado que seu grande amigo Jon Arryn, Mão do Rei, havia morrido, soube que o próprio Rei Robert (seu velho companheiro de batalha) estava indo diretamente para o norte oferecer-lhe a vaga. Ned decide aceitar a oferta quando a irmã de sua esposa, que era esposa de Arryn, manda-lhe uma ave dizendo que seu marido fora envenenado pela rainha Cersei. Sendo assim, ele teria a chance de proteger seu velho amigo das mãos da maligna mulher. Mas muitas coisas acontecem no caminho, provocando o andamento da guerra dos tronos, onde se vive ou se morre. Além disso, o inverno está para chegar.

Uma das coisas que mais surpreende na leitura de A Guerra dos Tronos é a facilidade com que o escritor apresenta sua obra ao público. Você começa a ler sem entender nada sobre Muralha, Patrulha da Noite, Os Outros, mas, conforme a história vai ganhando ritmo, você vai entendendo os verbetes e os acontecimentos e acaba por simpatizar-se ou não com a obra, dependendo de seu gosto, claro. Além disso, Martin faz perceber que tem um grande conhecimento sobre a Idade Média, desde a gastronomia e os tecidos da época às estratégias e armas de batalha, o que, obviamente, favorece ainda mais os detalhes da trama. Mas há quem vá se decepcionar com o livro, não pelo o quê ele traz, mas sim por como ele o faz.

Vou explicar-lhe. Diferente da maioria das séries de livros, ele não estabelece a trama de toda a saga por trás de um enredo que se inicia  e se finaliza em um só livro como Rowling nos apresenta seu mundo mágico por traz da busca pela pedra filosofal, por exemplo. Na verdade, A Guerra dos Tronos é o aperitivo para o clímax que deve acontecer em A Fúria dos Reis, o segundo livro da série. O que com certeza decepciona quando você lembra que os livros têm um preço bastante salgado e você está super curioso para ler o clímax da história. Não é um detalhe que prejudica a qualidade da obra por si só, mas às vezes é preciso seguir o padrão que agrada o público, e que acabou também por prejudicar a série de televisão da HBO adaptada da obra. A primeira temporada, baseada neste livro, acaba sem pé nem cabeça, com trama nenhuma concluída.

A Guerra dos Tronos com certeza já virou obrigatório pra qualquer fã de fantasia medieval, e vale a pena lê-lo. Mesmo com este pequeno incômodo, a leitura é ótima e tenho certeza que vai se surpreender com as reviravoltas criativas do escritor. Boa leitura!

Ps.: O mapa e as informações ao final são de grande ajuda.


Livro: A Guerra dos Tronos
Autor: George R. R. Martin
Editora: LeYa
Páginas: 592

domingo, 4 de setembro de 2011

Brasil: Os Fascinantes Anos 20 | Marcos Rey














São livros assim que podem fazer várias pessoas desejarem voltar no tempo e darem de cara com um Brasil não tão corrupto, não tão violento, não tão desigual. Em Brasil: Os Fascinantes Anos 20 voltamos na década onde os modernistas tentavam criar fãs, onde a luz elétrica surgiu, o lança-perfume não era droga e o rádio começou a ganhar fama. Porém, também damos de cara com um Brasil que também sofria com as revoltas do exército contra o governo, com as greves dos trabalhadores, que revindicavam melhores condições de trabalho, e com a crise de 1929, que afetou o Brasil diretamente com a queda da exportação do café, principal produto do país na época. Mas o importante aqui é saber que Marcos Rey nos conta uma breve estória, com personagens fictícios que vivem na época onde Tarsila do Amaral começou sua carreira e João Ribeiro de Barros atravessou o Oceano Atlântico Sul - com direito à participação destas personalidades.

Na trama, Gabriel é um rapaz que deixou a família em sua cidade natal e partiu para São Paulo para viver sozinho na Pensão da República e vender reclames pela cidade. Ele é um apaixonado pelos artistas modernistas e, junto com o amigo Natal, compra ingressos para a Semana de Arte Moderna. Lá, ele presenciou o público ir contra artistas como Villa Lobos e Oswald de Andrade, jogando tomates e diversas outras coisas. É nessa época que ele conhece Glorinha, a típica mulher dos anos 20, chamada de melindrosa, que usava vestidos mostrando as canelas, fumava e participada dos corsos de carnaval. Ele começa a se aproximar ainda mais de Glorinha quando sua família vem morar com ele em uma casa em São Paulo e Natal volta para Ribeirão Preto, onde seus pais vivem.

É bem difícil fazer uma sinopse de Brasil: Os Fascinantes Anos 20 sem contar spoilers da trama, porque o livro não tem nenhum objetivo. Objetivo que eu digo, físico. Afinal, ele tem a missão de mostrar como se vivia na década de 20 no Brasil, porém tampouco cria suas ramificações para chegar a um final que feche, literalmente, a trama. No desfecho, temos uma espécie de epílogo que nos conta como a vida do protagonista seguiu, mas não ficamos interessados, em nenhum momento, nos personagens. E o escritor sabe disso. Não é a toa que, na própria sinopse do livro, não encontramos nem mesmo o nome do protagonista, e sim em como era chamada a década de 20 e os motivos para tal. É aí que descobrimos a ideia do autor: utilizar um enredo fictício como estrutura para contar a história de uma época verídica, e tenho que admitir que esta mescla dá certo. Brasil: Os Fascinantes Anos 20 é uma leitura prática e rápida, que pode te ensinar bastante coisas ou não sobre a década, dependendo de seu nível de conhecimento sobre a mesma. Aí, já depende de cada um; mas há uns bons fatos verídicos ao final do livro, que valem a pena ler.

Livro: Brasil: Os Fascinantes Anos 20 - Col. O Cotidiano da História
Autor: Marcos Rey
Editora: Ática
Páginas: 64 - Edição de 2004

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Caso dos Dez Negrinhos | Ágatha Christie














Não li muitos livros de Christie, mas basta ler apenas um que você já percebe a facilidade da autora em criar e contar histórias incríveis, traçando os acontecimentos de forma magnífica e sem deixar a conclusão óbvia. O Caso dos Dez Negrinhos é conhecido como sua obra de arte, e foi seu livro que mais vendeu. Explorando bem seus personagens e abrindo espaço para todos terem seu grande momento, Christie apresenta seu estilo único, um marco no gênero da literatura policial, que mostra como não é preciso fornecer tantos detalhes para se contar uma boa história. Pelo menos quando esta história está nas mãos dela.

Seja como convite de passeio ou a trabalho, oito pessoas são convidadas por cartas a ir até a Ilha do Negro, na costa de Devon. Chegando ao local, são levados de barco até uma ilhota com uma casa moderna, na qual um casal de mordomos os esperavam. Os anfitriões não estão na casa, e nenhum deles jamais vira os mesmos. Nos quartos, um poema sobre dez negrinhos que morriam cada um de forma diferente do outro ficava em cima da lareira, e pequenos retratos de porcelana com dez negrinhos serviam de decoração na mesa de jantar. A noite chegou, e, enquanto esperavam a chegada dos proprietários, um disco no gramofone acusou cada um presente de assassinato. Em seguida, um deles morre envenenado pela bebida, seguido de outro que morre enquanto dormia. Assim, assassinatos vão acontecendo da mesma forma que cada negrinho morre no poema; e cada acontecimento é seguido de um retrato de porcelana desaparecido. A ilha está vazia, e não há contato com o exterior. Os proprietários nunca chegaram, e a única certeza é a de que quem está fazendo isto se encontra entre eles.

Apresentados logo aos visitantes da ilha à caminho do local, conhecemos o mínimo possível sobre cada um. A ideia de Christie é que os personagens tenham seu passado revelado ao decorrer da trama, para que não tenhamos um preferido ou um suspeito logo de cara; a pura essência do gênero, que hoje em dia é difícil de encontrar. Ágatha faz o possível para deixar o leitor intrigado, com os olhos colados nas páginas e criando suas próprias hipóteses (eu jurava que o Sr. Rogers tinha um irmão gêmeo!) para os acontecimentos - desde desaparecimentos de objetos (como as próprias figurinhas de porcelana ou até mesmo a cortina do banheiro) a personagens que parecem estar perdendo a sanidade mental (vide o tapa na cara que Vera ganhou do Dr. Armstrong). São coisas assim que fazem a cabeça do leitor agir e formar sua opinião sobre o (s) culpado (s), sobre como tudo aconteceu e sobre os motivos pra tudo acontecer, e Christie é a melhor em criar esses momentos e, principalmente, em concluí-los de forma fenomenal, praticamente impossível de ser descoberta antes da hora.

Com criatividade, a escritora realiza uma das melhores, se não a melhor, obra de sua carreira. Quebrando barreiras (na época poucas mulheres se arriscavam a ser escritoras, pois ainda havia muito preconceito, e muitos menos em escreverem romances policiais), Ágatha Christie foi uma das pessoas mais influentes de sua época, e ainda continua a influenciar escritores e leitores no mundo inteiro. O Caso dos Dez Negrinhos prova isso do começo ao fim, exalando genialidade da mente por trás dele.

Livro: O Caso dos Dez Negrinhos 
Autor: Ágatha Christie
Editora: Globo
Páginas: 219

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O Ladrão de Raios | Rick Riordan














Criar uma obra de fantasia nos dias de hoje é uma tarefa difícil, já que o escritor tem que se desviar dos estereótipos e concentrar suas ideias no original, mas sem perder a essência do gênero - que é a responsável por vender os livros e conquistar fãs. O mais difícil ainda é criar uma obra de fantasia que se passa nos dias de hoje, porque tem que ter muito cuidado ao misturar os avanços do século XXI com lendas de vampiros, bruxos, zumbis ou, como neste caso, mitologia.

Percy Jackson tem doze anos, vive mudando de escola e sofre de déficit de atenção. Para onde vai, ele arranja confusão. Em casa, sua mãe é casada com Gabe "Cheiroso", seu padastro, e ele nunca conheceu o pai biológico. Em um passeio escolar, o jovem acaba descobrindo que sua professora de álgebra, na verdade, é uma Fúria (ou Benevolente, como as chamam) e ele - com a ajuda de uma espada - transforma a criatura em pó. Desde aí, várias outras coisas acontecem e ele vai parar no Acampamento  Meio-Sangue, e descobre ser um semideus, filho de Poseidon - o deus dos mares.

No início do livro, o protagonista fala diretamente com você e te dá um recado: "Se você está lendo isto porque acha que pode ser um [meio-sangue], meu conselho é o seguinte: feche este livro agora mesmo." - se Rick Riordan escrevesse isso no século passado, seria uma ofensa para com o gênero. Afinal, a fantasia antigamente era feita para o próprio leitor se sentir dentro da trama; do mundo criado pelo escritor. Quantas crianças já não fuçaram o guarda-roupa em busca da passagem para Nárnia? Alguns autores atuais ainda seguem esta linha, mas Rick Riordan foi na direção oposta e misturou o século XXI com mitologia de uma forma bem mais física e menos "mágica" do que Rowling e seu Harry Potter ou Lewis e sua Nárnia, por exemplo, e talvez esse seja o principal erro do escritor: dizer que ser filho de um deus não é bom

Não só no que se refere a própria frase, Riordan erra também na maneira que conduz esse lema de forma a tentar fazer com que o leitor acredite nisto. Em alguma página do livro, Percy Jackson (que, aliás, é um dos protagonistas mais irritantes que eu já tive o desprazer de conhecer) revisa tudo de ruim que aconteceu até aquele momento e coloca toda a culpa nos deuses. Mas acontece que essas passagens são tão rápidas - e algumas até estranhas - que fica difícil acreditar que um chihuahua pode se tornar uma mortal Quimera, que um poodle os ajude a ganhar dinheiro para pagar passagens de trem ou que Procrusto, O Esticador seja dono de uma loja de colchões d'água - tudo isso soa, no mínimo, ridículo.

Uma cópia descarada de Harry Potter? Talvez seja um equívoco comparar obras com temas tão diferentes; mas é impossível deixar de notar algumas semelhanças. Os personagens, por exemplo: Percy e Harry têm sua arrogância pessoal (embora Potter seja mamão com açúcar perto de Jackson) e sofrem com a falta dos pais; tudo está contra, e jamais a favor, deles. Annabeth e Hermione são o cérebro do grupo, e muitas vezes chegam a ser irritantes; e Rony Weasley e Grover são o "alívio cômico" do trio. Mas temos que concordar que Riordan não consegue ser tão genial quanto Rowling ao criar sua obra; seja nos infantis acontecimentos durante toda a trama ou na falta de exploração dos próprios personagens (no livro inteiro, ele praticamente não chora pela morte da mãe, o que leva por água abaixo as tentativas de Riordan de explorar o sofrimento de um Percy órfão).

O Ladrão de Raios ridiculariza a mitologia grega, e dificilmente conquistará a atenção dos verdadeiros fãs do tema com um protagonista insuportável e coadjuvantes que não roubam a cena pela falta de exploração ou por serem, simplesmente, patéticos.

Livro: Percy Jackson & Os Olimpianos: O Ladrão de Raios
Autor: Rick Riordan
Editora: Intrínseca
Páginas:385

terça-feira, 19 de julho de 2011

Harry Potter de A a Z | Aubrey Malone















Harry Potter de A a Z, como a própria capa faz questão de dizer a fim de evitar processos judiciais, é o "guia não-oficial definitivo de toda a série" - isso porque não foi autorizado nem aprovado (mas não quer dizer que tenha sido desaprovado) por J. K. Rowling (a autora da saga) ou pela Warner Bros. (o estúdio responsável pelos filmes). Mas, se a escritora leu o guia, tenho certeza que o desaprovou, porque Aubrey Malone com certeza não leu os livros antes de escrever sua própria mini-enciclopédia. Sim, mini; porque a obra tem apenas 223 páginas - e precisaria de um livro bem maior para abranger tudo sobre o mundo de Harry Potter e sobre a vida de Rowling (o guia tem verbetes sobre os livros, fatos sobre a vida da escritora, curiosidades, etc.). E o mais estranho é que, em uma nota do autor, bem no início, Malone afirma que o guia não pretende de forma alguma ser completo - então, por quê motivo ele o fez?

E, como eu disse, ele parece não ter lido os livros antes de escrever o guia. Há vários verbetes com erros ou faltando informações, como em "Floresta Proibida", onde ele diz que esta floresta aparece em A Pedra Filosofal - sendo que ela aparece em todos os livros, e há muitas aventuras de Harry que têm esta como cenário. Outro exemplo é em "Basilisco", onde o autor diz que é uma serpente cujo olhar transforma as pessoas em pedra. É claro que essa informação é incorreta, já que o olhar de um Basilisco é mortal - e só transforma pessoas em pedra quando seus olhos são vistos à partir de um reflexo (como pelo espelho, por exemplo). Ele também trata "Hagrid, Rúbeo" como um gigante, sendo que ele é um meio-gigante.

Na verdade, poucos são os que não têm erros - e os que não têm é porque estão incompletos. Em "Delacour, Fleur", por exemplo, ele explica que ela é uma jovem bastante esnobe, em parte veela, e que se casa com Gui Weasley em As Relíquias da Morte. E acaba aí. Custava dizer que ela é francesa, estuda na Beauxbatons, tem uma irmã chamada Gabrielle, e que aparece pela primeira vez em O Cálice de Fogo, quando participa do Torneio Tribruxo? Ou é preguiça ou é total falta de ignorância do autor. Outro exemplo é "Nagini". Como quem leu o guia, sabe que Aubrey Malone entrega vários spoilers (o que não é um erro, já que se trata de um guia), mas, quando ele vai descrever a cobra de Lord Voldemort, ele simplesmente diz que ela tem um papel imenso em As Relíquias da Morte, ao invés de dizer que ela é uma das horcruxes do Lorde das Trevas.

Resumindo: se você quer saber mais sobre a saga Harry Potter, não leia Harry Potter de A a Z. Quando ele vai falar sobre a vida de Rowling, ele até acerta (por exemplo, quando cita Sandra Luchian, em um relato emocionante), mas o livro é desorganizado ao extremo. Ele mistura as curiosidades dos filmes, os nomes dos atores, os verbetes da saga, a vida de Rowling e os personagens sem sequer dividir em blocos - o que é uma baita de uma sacanagem, e nem o belo visual do livro ajuda na leitura. Se quer saber mais sobre estes temas, há uma enciclopédia online em português criada pelo Clube do Slugue, que se chama Potterpédia (clique aqui para ir à página) e é 100% confiável, além de gratuita, claro.

Livro: Harry Potter de A a Z
Autor: Aubrey Malone
Editora: Prestígio Editorial
Páginas: 233

terça-feira, 12 de julho de 2011

Anjos e Demônios | Dan Brown















Quem nunca sonhou em fazer ao menos uma visita à Cidade do Vaticano, à Basílica de São Pedro ou à Roma, por exemplo, pode talvez não se animar tanto quanto a pessoa que sonha com isso ao assistir o filme Anjos e Demônios (2009, dirigido por Ron Howard), que é, praticamente, um desfile de cenários exóticos e belíssimos, constituído por ruas, avenidas e capelas de Roma. Estas últimas, por sua vez, exibem obras de arte de escultores e pintores famosos - ou seja, um prato cheio pra qualquer viajante, artista ou até mesmo fanático religioso. Não só neste ponto, o filme também chama atenção pela trama inteligente criada pelo escritor Dan Brown em seu livro de mesmo nome, e foi assim que eu - não só, com certeza - fiquei curioso e decidi ler o livro, que é, sem dúvida alguma, melhor que o filme - o qual acabei odiando após minha leitura ao descobrir a infidelidade para com a estória original.

Na trama, que antecede a estória de O Código da Vinci, Robert Langdon é um professor de Simbologia de Harvard que um dia acorda de madrugada com seu telefone tocando. Do outro lado da linha está Maximiliam Kohler, diretor do CERN (o maior estabelecimento de pesquisa científica do mundo), que o chama para desvendar um grande mistério. Um cientista do local fora assassinado brutalmente e marcado á fogo com uma marca de uma fraternidade há muito extinta: os Illuminati, antigos inimigos da igreja. Assim, Langdon sai de sua casa nos Estados Unidos e vai para a Suécia. Lá, ele conhece Vittoria Vetra, a filha do cientista assassinado. Tudo ia bem até que Kohler obriga Vittoria a mostrar uma experiência secreta que ela e seu pai estavam fazendo, e que ninguém mais tinha conhecimento sobre. A tal experiência chocou tanto Robert quando Kohler: o pai de Vittoria havia encontrado a maneira de criar a antimatéria (o contrário de tudo o que existe no mundo), e que pode destruir uma cidade com menos de quinhentas gramas. Porém, o mais impressionante é que a tal antimatéria fora roubada. Já em outro país, a tal antimatéria aparece em uma câmera na sala de vigilância do Vaticano, e o problema é que ninguém sabe onde se encontra essa câmera e que, em poucas horas irá explodir. A única informação é que esta câmera só pode estar dentro do Vaticano. As buscas se iniciam, mas um dos integrantes da fraternidade Illuminati se manifesta dizendo que sequestrou os quatro cardeais que são os possíveis eleitos ao papado do conclave que está ocorendo no Vaticano no exato momento de todos estes acontecimentos e que irá matar um por hora, até a meia-noite, em quatro igrejas diferentes espalhadas por Roma. Agora, resta a Robert Langdon, com seus conhecimentos sobre artes e religião e a ajuda de Vittoria, desvendar o mistério que desenterra os antigos inimigos da igreja, enquanto o Vaticano está prestes à explodir e os possíveis eleitos ao papado irão ser assassinados.

Eu nunca havia lido nenhum Dan Brown, mas me encantei com o modo de escrever do autor. Ele cria personagens fascinantes frequentando lugares totalmente interessantes e, às vezes, até exóticos. Anjos e Demônios começa nos Estados Unidos, em Nova Iorque, na casa do protagonista. Bem rápido, ele já está na Suíça passeando pelo CERN, o maior estabelecimento de pesquisas científicas do mundo (que realmente existe), depois na Cidade do Vaticano e correndo pelas ruas da Roma Moderna (e, acreditem, tudo isso em um dia só). Porém, o mais interessante (e inteligente) disso tudo é que Brown aproveita fatos reais para construir sua trama ficcional ao redor disso tudo. Um exemplo é a antimatéria, que foi criada por cientistas do CERN, que conseguiram mantê-la por menos de um segundo por cinco vezes. À partir daí, Brown criou toda sua trama - misturando arte, religião, terrorismo, assassinatos, ciência e muito suspense. É impossível um fã do gênero ficar sem ler o livro após começar - a trama tem vários clímax que, juntos, formam um ritmo eletrizante sobre descobrir a verdade antes que seja tarde demais, desenterrando mistérios que há muito tempo não eram revelados.

Anjos e Demônios é altamente recomendável. Dan Brown se mostra um escritor ousado, conseguindo mesclar vários temas dentro de uma só trama, resultando em um espetáculo de inteligência que, melhor ainda, é fácil de entender, mesmo adentrando em assuntos tão difíceis como o conflito entre a razão e a fé. Com personagens cativantes, cenários exóticos e diálogos muito bem escritos e explicados, o livro é um marco da literatura ficcional.

Livro: Anjos e Demônios
Autor: Dan Brown
Editora: Sextante
Páginas: 461

sábado, 25 de junho de 2011

Bilionários Por Acaso - A Criação do Facebook | Ben Mezrich















Para o Brasil, onde o Orkut sempre foi e ainda é a rede social dominante, o Facebook pode não ser lá tudo isso que ouvimos falar. Afinal, o Orkut já desempenha o papel de conectar várias pessoas em um lugar onde estas podem listar seus interesses e paixões. A rede da "rosquinha rosa" só abrange um público de grande escala aqui no nosso país e na Índia. E aí está o motivo de tanto alvoroço quando o Facebook começou a fazer sucesso nos Estados Unidos: inovação. Os americanos não eram acostumados com esse tipo de rede tão recheada de aplicativos e informações sobre seus usuários e que conectasse o mundo inteiro junto (esse fator nem os brasileiros conhecíamos). E, cá pra nós, o Facebook é bem mais avançado que qualquer rede social existente por aí; prova disso são os milhões de usuários espalhados pelo mundo inteiro.

Aí veio Ben Mezrich, escritor de Quebrando a Banca (outro livro sobre jovens que ficaram milionários da noite pro dia), e decide contar toda a história por trás da criação do Facebook (como ele faz questão de dizer, "uma história de sexo, dinheiro, genialidade e traição"). Logo no começo (depois de ele se autodenominar um geek), Mezrich nos informa que o livro é baseado em entrevistas, fontes (algumas anônimas) e páginas de documentos judiciais ou não; porém, o que mais intriga, é que há opiniões diferentes e contraditórias sobre alguns eventos narrados. Pô! Então, mesmo lendo e relendo trocentas vezes Bilionários Por Acaso, nunca teremos cem por cento de certeza do que aconteceu de verdade em vários momentos? As únicas passagens em que podemos confiar são aquelas sobre os bastidores da criação da tal rede social que, procurando na internet, já as encontramos em notícias de portais e blogs. Todos que conhecem um pouco da criação do Facebook já sabem que os processos movidos contra Mark Zuckerberg ainda não acabaram e estão em sigilo absoluto; e o enredo do livro é mesmo assim: só conta o início da trama entre Zuckerberg, Eduardo Saverin, Sean Parker, os gêmeos Winklevoss e o Facebook. A história não tem um fim, e, por conseguinte, nem um meio. Sem falar que tudo o que está no livro poderíamos ter encontrado na internet sem nenhum esforço.

Até mesmo o filme de David Fincher, A Rede Social (que adaptou o roteiro deste livro e ganhou o Oscar pelo trabalho bem feito), nos prepara uma conclusão melhor, já que, enquanto é apresentado ao público todo o processo da criação do Facebook e de amizade entre os personagens, algumas cenas do julgamento e dos processos contra Zuckerberg são mostradas em cortes bem feitos pelos editores do filme. Assim, quando o longa chega ao final, o público já está preparado com o que vai acontecer e acaba não se decepcionando. Diferente do leitor leigo que vai ler o livro e, quando chega ao final, fica sabendo que a história não tem nenhuma conclusão ou do leitor que já sabe dos principais acontecimentos em torno da trama e, quando vai ler o livro, descobre que não há nada de relevante. Resumindo para você que ainda não entendeu (dificilmente, depois de tantas ênfases de minha parte): se quer saber a história da criação do Facebook, procure assistir ao filme A Rede Social, que, além de seguir a trama à um rumo bem mais prático e empolgante, conta com a ajuda do ótimo elenco liderado por Jesse Eisenberg.

O livro é cheio de blábláblá (Mezrich mesmo afirma que muitas vezes modificou alguns momentos para dar mais dramaticidade) e nunca conquista de verdade sua confiança, uma vez que diálogos e cenas foram recriados e resumidos e nomes e descrições de pessoas (excluindo as personalidades públicas que povoam esta história) foram também alterados. Ou seja, os fatos em que podemos confiar podem ser encontrados em qualquer página do Google, e os que não podemos confiar pois não sabemos a verdade sobre eles não são relevantes, por motivos óbvios de que um livro sobre este assunto deveria nos mostrar a verdade sobre os acontecimentos - o que é impossível, uma vez que os processos estão em completo sigilo e de que Zuckerberg e Saverin relatan acontecimentos que se contradizem.

Bilionários Por Acaso pode ser descartável. Tudo o que está na internet está no livro, e nem tudo o que está no livro pode ser verdade. Serve como um passatempo pra quem não está compromissado com o livro, só quer saber os fatos contados através de Ben Mezrich ou quer conhecer o livro que gerou o roteiro de A Rede Social (como eu). Se quiser mesmo saber a verdade pos trás do Facebook, adentre a cabeça de Mark Zuckerberg e Eduardo Saverin. É o único jeito.

Livro: Bilionários Por Acaso - A Criação do Facebook
Autor: Ben Mezrich
Editora: Intrínseca
Páginas: 228

terça-feira, 7 de junho de 2011

Harry Potter e a Pedra Filosofal | J. K. Rowling














Quem é fã do gênero fantasia não pode deixar de ler a saga Harry Potter. J. K. Rowling, como eu já disse no especial da saga, criou um mundo inteligente, complexo, e, ao mesmo tempo, empolgante e divertido; e Harry Potter e a Pedra Filosofal tem o papel importante de apresentar esse mundo ao público. Embora seja o mais infantil de todos (afinal, a série, no início, era mais voltada às crianças) -, é uma ótima obra repleta de personagens marcantes, narrativa bem desenvolvida e explorada e cenários espetaculares (Hogwarts é um marco da literatura).

O livro conta a história de Harry, órfão que vive com o tio Válter Dursley, a tia Petúnia Dursley e o primo Duda. Na casa dos Dursley, ele dorme em um armário sob a escada, e vive como uma espécie de escravo desta família. Porém, um dia, Harry começa a receber várias cartas, mas seu tio sempre o impedia de abri-las. Após uma rajada de cartas vindas, eles decidem tirar férias. Mesmo confuso, Harry é obrigado a ficar alguns dias em uma cabana com os Dursley. Porém, eles recebem a visita de Hagrid, que se dizia guarda-caça e Guardião das Chaves e Terrenos da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e que Harry, na verdade, é um bruxo; e seus pais haviam lhe salvado a vida em troca da deles, quando um antigo Lorde das Trevas, chamado Voldemort, tentou matá-lo. Neste ato, Harry acabou com uma cicatriz em forma de raio na testa, e Voldemort desapareceu para sempre. 

Então, mesmo sem a permissão dos tios, ele vai com Hagrid ao Beco Diagonal para comprar seus materiais e ir à Hogwarts. Entre livros, caldeirões e pergaminhos, ele ganhou uma coruja a qual deu o nome Edwiges, comprou sua própria varinha mágica e retirou um pouco do dinheiro que seus pais deixaram pra ele no banco bruxo, o Gringotes. Neste mesmo lugar, Hagrid retirou um pequeno embrulho de um cofre vazio, mas disse que aquilo era segredo, e que Harry não poderia saber o que estava no embrulho. No dia 1 de setembro, ele vai à King's Cross, atravessa uma parede mágica e pega o Expresso de Hogwarts. No caminho ao castelo, ele conhece Rony Weasley e Hermione Granger -  mais tarde eles se tornarão grandes amigos. As aulas (entre elas as de Feitiços, Herbologia, Poções e Transfiguração) começaram, e um recado foi dado pelo diretor Dumbledore: nenhum aluno poderia pisar no corredor do terceiro andar. Porém, confusos, Harry, Rony e Hermione foram ao lugar sem querer e descobriram que um cão de três cabeças protegia um alçapão. Dias depois, Harry fica sabendo que o cofre em que fora com Hagrid em Gringotes havia sido assaltado, mas o ladrão não achou o que queria. Assim, os três pequenos bruxos tentam desvendar o mistério por trás de tudo isso, e descobrem a existência da Pedra Filosofal, o elixir da vida.


Harry, Rony e Hermione: existirá, talvez, um trio de amigos que os supere? A unção das características de cada um em uma forte amizade resulta em um dos principais motivos para ler Harry Potter. Harry tem um gene forte e toma muitas decisões precipitadas, mas tem um bom coração e sempre pensa em ajudar as pessoas em primeiro lugar; mesmo que, para isso, deva-se quebrar algumas regras. Rony, com seu jeito desengonçado, é o palhaço do trio, mas é sempre fiel aos amigos. Hermione é a mais inteligente de sua turma, e muitas vezes se torna irritante. Porém, por causa de vários acontecimentos em que ela se mostrou certa, Harry e Rony aprenderam a ouvi-la antes de tomarem decisões precipitadas. 

Mesmo com a obrigação de criar protagonistas envolventes, Rowling deu características notáveis aos seus personagens coadjuvantes; ao ponto de muitos deles se tornarem épicos. Hagrid, mesmo com o dobro da altura e o quíntuplo da largura de um homem normal,tem um coração bondoso e trata as crianças como se eles fossem seus filhos. Sempre dando e recebendo conselhos, o trio busca sua ajuda quando precisa; e eles são sempre os favorecidos pelo meio-gigante. Dumbledore: o grande sábio. No final de cada livro, uma conversa entre Harry e Dumbledore faz o jovem bruxo pensar em suas decisões e desvendar seu destino, que se mostra cada vez mais sombrio. Durante toda a saga, Dumbledore não é muito explorado, mas  o último livro traz à tona a vida de segredos do agora ex-diretor. No primeiro livro ele se mostra um velho bondoso e risonho, sempre demonstrando amor e confiança.

Porém, se por um lado Rowling cria os personagens mais bondosos possíveis, de outro, ela sabe inventar antagonistas detestáveis - no bom sentido da palavra. No primeiro livro temos uma pequena parcela de maldade. Lord Voldemort, no pouco que aparece, faz os pêlos da nuca de cada leitor se arrepiarem (a cena da floresta virou clássico). E Severo Snape, o professor de Poções, consegue ser odiado até mesmo pela pessoa mais bondosa. A família Dursley não é nada comparada às trevas de Voldemort, mas é um antagonismo à mais no enredo.

Absolutamente não há erros em Harry Potter e a Pedra Filosofal. Rowling desenvolve as características de personagens e cenários, explica tudo o que é novo ao público (os itens mágicos, por exemplo) e se baseia em uma trama totalmente original, que se ramifica em várias subtramas espetaculares, e que serviram para impulsionar a saga até o seu sétimo e último livro - além de três pseudônimos.

Livro: Harry Potter e a Pedra Filosofal
Autor: J. K. Rowling
Editora: Rocco
Páginas: 263

domingo, 29 de maio de 2011

Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, de Stieg Larsson


Mais do que uma trama policial onde um jornalista acusado de difamação e uma hacker antissocial tentam desvendar o desaparecimento de uma jovem há 36 anos atrás, o livro de Stieg Larsson acaba criando diversas ramificações e personagens coadjuvantes que, no fim, servem como prova de que a violência, a corrupção e a injustiça estão escondidas em todos os cantos de nossa sociedade, bem debaixo de nosso nariz. Mas o mais surpreendente na obra do jornalista sueco é que seus dois protagonistas, que se vêem presos nessa teia de intrigas, não são nada comuns e utilizam métodos pouco ortodoxos para conseguirem o que querem - mostrando que nem sempre o mal deve ser combatido com o bem.

E são esses personagens que oferecem uma leitura diferente ao leitor de Larsson. Embora toda a apresentação destes seja bem demorada, porque o escritor indiscutivelmente adora detalhes, suas personalidades, seus métodos e suas decisões são muito opostas ao que costumamos encontrar nas tramas investigativas. O sarcasmo, as jogadas falsas e as deduções podemos encontrar em Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, por exemplo. Já a tortura, a violência sexual, as câmeras de vídeo escondidas, o abuso de poder e o ponto de vista psicológico são temas bem mais atuais. O que podemos tirar de tudo isso é que Larsson consegue mesclar todos esses elementos, antigos ou mais recentes, de uma trama investigativa a um conhecimento muito grande que ele mostra ter de tudo o que se passava na Suécia na época ou mais antigamente, seja economicamente ou politicamente falando, sendo o jornalista respeitado que era.

Outro fator que chama muito a atenção em Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, e que não vemos nos outros dois livros da trilogia, é o cenário principal da história. Pra começar, não é todo o dia que vemos uma grande obra literária sueca, não é mesmo? Larsson dá um mapa detalhado das ruas, dos lugares mais frequentados e mais conhecidos de Estocolmo, mas é na ilha de Hedeby que a trama se desenvolve melhor e é onde está concentrado todo o frisson da trama. Os protagonistas, enquanto investigam o desaparecimento da jovem, hospedam-se nesta ilha praticamente reservada da família Vanger, cujo um ou mais dos integrantes pode ser o responsável pelo sumiço da jovem há anos atrás. Ninguém ali, exceto Henrik Vanger, concorda com a presença deles e alguém faz de tudo para tirá-los dali (o que inclui uma perseguição pulsante pela orla da ilha em um momento do livro).

Alguns podem se assustar com este primeiro livro exatamente pelos diálogos longos e monótomos no início e no final - a maioria devido ao caso Wennerström -, mas a facilidade que vemos de Larsson em escrever e o ritmo contagiante do segundo ato onde os dois personagens se juntam para investigar valem a pena por todo o esforço e tenho certeza de que você vai querer continuar a trilogia, se gostar do gênero, é claro.


Livro: Os Homens Que Não Amavam As Mulheres
Autor: Stieg Larsson
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 528

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Aldeia Sagrada | Francisco Marins














Francisco Marins é um dos grandes escritores brasileiros de livros infanto-juvenis, dono da série sobre a fazenda Taquara-Póca e de uma bibliografia invejável. Porém, A Aldeia Sagrada é um de seus deslizes. O livro tem a missão de apresentar ao público um fato histórico brasileiro pelos olhos de um jovem garoto, mas as barreiras psicológicas de uma criança não estão presentes aqui, fazendo com que não exista ingenuidade na personagem, e que a trama tenha como protagonista um sertanejo qualquer, e não uma criança (até mesmo porque os jovens de antigamente eram bem mais maduros dos de hoje em dia). Fato que prejudica a narrativa do livro, que fica cada vez menos empolgante com uma trama simples e nada inovadora.

Didico morava com seu tio e sua tia em uma casa pobre no sertão, mas a morte da tia e o sumiço do tio acabam fazendo com que ele se junte à um grupo de retirantes que procuram fugir da terrível seca. Em um dos lugares onde o grupo acampava, chega um velho homem de aspecto bondoso: Antônio Conselheiro construíra uma aldeia conhecida como Canudos, onde todos se ajudam. Porém, logo o governo começará a mandar tropas ao local, resultando na sangrenta Guerra de Canudos. Didico descobre que seu tio está do lado de Conselheiro, e, com a ajuda de dois amigos, vai até Canudos em busca do tio, no auge da batalha.

O livro tem dois grandes ápices. O primeiro é quando Didico, com a ajuda dos amigos e de seu fiél cão assaltam um terreno para roubar pés de mandioca, mas acabam sendo perseguidos por cães. Já o segundo é o final, que consegue ser a única parte que chega mais perto de emocionar o leitor. A Guerra de Canudos, que teria de ser o auge do enredo, é retratada tão rapidamente que chega a ser totalmente esquecível. Assim como os personagens, que praticamente não têm exploração alguma.

A Aldeia Sagrada tem erros graves, que tornam o livro um tanto quanto sofrível para a leitura. Se estiver procurando uma obra sobre a Guerra de Canudos, este livro é parcialmente informativo. Já, se estiver procurando uma estória de sertanejos retirantes, há obras bem melhores do que esta.

Livro: A Aldeia Sagrada
Autor: Francisco Marins
Editora: Ática
Páginas: 106

sábado, 14 de maio de 2011

As Crônicas de Nárnia: O Sobrinho do Mago | C. S. Lewis














O escritor irlandês Clive Staples Lewis publicou, em 1950, seu primeiro livro. As Crônicas de Nárnia: O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa se tornou um clássico da literatura infantil; e Lewis não pretendia continuar uma saga de livros. Porém, prosseguiu escrevendo até o quarto livro da franquia; que é quando ele decide continuar a saga, mas com estórias que preenchessem as lacunas das passagens de um livro para o outro. Em As Crônicas de Nárnia: O Cavalo e Seu Menino, ele conta as aventuras do cavalo Bri e do menino Shasta enquanto acontece a Era de Ouro em Nárnia (ou seja, durante o reinado dos irmãos Pevensie), recheando o espaço vazio que ficou entre o primeiro e o segundo livro em ordem de publicação de informações. Já As Crônicas de Nárnia: O Sobrinho do Mago é o penúltimo livro a ser publicado, mas o primeiro em ordem cronológica.

Neste, Lewis nos apresenta a garota Polly e o menino Digory, que são vizinhos e descobrem que o tio do garoto é um mago que fabricou dois anéis mágicos que levam eles ao Bosque entre Mundos, um local com vários lagos que levam à diferentes mundos. Entrando em uma das lagoas, os meninos vão parar em Charn, onde libertam Jadis, A Feiticeira Branca, que acaba voltando junto à eles até nosso mundo. Porém, viajando novamente ao Bosque entre Mundos, os garotos, a Feiticeira e o Tio André vão parar em um local vazio, mas que logo é transformado em Nárnia, pelo leão Aslam.

Lewis cria o Reino de Nárnia de um jeito mágico, afinal não havia uma maneira melhor de fazê-lo, já que Nárnia é um mundo em que tudo pode acontecer. Os livros de fantasia que criam paralelos da Terra, em sua maioria, são adorados pelo público (especialmente o infantil), pois são lugares em que as pessoas sonham em conhecer um dia. Mas o melhor da Saga As Crônicas de Nárnia é que C. S. Lewis cria toda uma história para seu mundo mágico, misturando Mitologia Grega, Nórdica, batalhas, animais falantes, contos de fadas, etc. e utiliza temas cristãos em todos os livros. Em O Sobrinho do Mago, em especial, trata-se Aslam como Deus, e a maçã dourada como uma fonte do pecado. Já em A Viagem do Peregrino da Alvorada, por exemplo, temos os Sete Pecados e a Estrela Azul, que serve como guia dos garotos (o que lembra a Estrela Guia, que levou os Três Reis Magos até Jesus).

Com seus personagens principais, Lewis quer dizer que a imaginação, coragem e humildade das crianças podem "mover montanhas". Polly, Digory, Susana, Pedro, Edmundo, Lúcia, Shasta, Aravis, Jill - todos eles são crianças que, sozinhas, partem para aventuras que mudarão os rumos de Nárnia e darão lições de moral ao leitor. Mas o principal erro de Lewis em suas obras é a falta de descrição de seus personagens e cenários. Nós nunca sabemos a aparência dos personagens, nem mesmo dos principais, o que leva muitas pessoas à preferirem os filmes (feitos pela Disney) aos livros, já que o número de páginas não são tão grandes, e os longas mantêm a fidelidade e ainda acrescentam as lindas paisagens de Nárnia.

Resumindo: Lewis realizou uma das melhores sagas de livros de fantasias existentes, e merece pontos por isso; mas a falta de detalhes sobre seus cenários e personagens pode ser considerada um erro cometido por ele; além de alguns diálogos em que nós não sabemos quem está falando, fazendo com que o leitor volte à ler o parágrafo diversas vezes. Porém, O Sobrinho do Mago é um livro essencial para quem quer entender o Reino de Nárnia e se maravilhar com o encanto de C. S. Lewis.

Livro: As Crônicas de Nárnia - O Sobrinho do Mago
Autor: C. S. Lewis
Editora: Martins Fontes
Páginas: 184

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O Menino do Pijama Listrado | John Boyne















"Um livro tão simples e tão bem escrito que beira a perfeição." Este trecho do jornal The Irish Independent descreve a obra de John Boyne excepcionalmente bem. O Menino do Pijama Listrado tem uma narrativa simples, mas tão envolvente que chegamos à sentir carinho por Bruno, o protagonista de apenas nove anos - o que é difícil, já que o livro é voltado para o público adolescente/adulto.

Boyne nos entrega uma ampla visão de espaço/cenário, explicando toda a aparência deste - seja da mansão de Berlim, ou do próprio campo de concentração -, assim como de personagens: "Ele vestia o mesmo pijama listrado que todas as outras pessoas daquele lado da cerca, e um boné listrado de pano. Não tinha sapatos ou meias, e os pés estavam um pouco sujos. No braço ele trazia uma braçadeira com uma estrela desenhada. (...) A pele era quase cinza, mas diferente de outras tonalidades de cinza que Bruno já havia visto. Os olhos eram bem grandes, da cor de balas de caramelo; os brancos eram muito brancos, e, quando o menino olhou para Bruno, tudo o que este viu foi um par de enormes olhos tristes a encará-lo." E tudo isto, avaliado pela mente de Bruno, ganha comparações infantis, como tal trecho: "Os olhos eram bem grandes, da cor de balas de caramelo".

O enredo segue Bruno, um menino de nove anos cuja profissão do pai (a qual ele nem mesmo sabe corretamente o que é) fez sua família se mudar de Berlim para uma casa em um lugar apelidado de Haja-Vista pelo garoto; onde não há amigos para ele brincar. Da janela de seu quarto, ele avista uma espécie de fazenda ao longe, onde há pessoas vestidas de "pijamas listrados", mas nunca recebe uma resposta de sua família sobre o verdadeiro significado disso tudo. Porém, brincando de detetive no longo quintal da nova casa, ele acaba chegando perto da "fazenda" e encontra Shmuel, um garoto da mesma idade que a sua, preso do outro lado da cerca. Desde aí, a amizade dos dois se torna cada vez mais forte. Para entender melhor, estamos na década de 40, onde o Holocausto permanece matando inocentes de formas que, mais tarde, viríamos a descobrir serem extremamente malignas, o pai de Bruno é um dos grandes homens de Hitler, e a tal "fazenda" é o Campo de Auschwitz.

John Boyne coloca a ignorância e ingenuidade de duas crianças à frente de um monstruoso sistema; uma missão para poucos. O autor ainda coloca pequenos detalhes que exemplificam tal ingenuidade, como o fato de Bruno pronunciar Fúria ao invés Führer, quando se refere à Hitler; e, se tem algo em que Boyne é mestre, este algo são os pequenos detalhes, que, muitas vezes, passam imperceptivelmente. Bruno e Shmuel, por exemplo, nasceram no mesmo dia, e isso só serve para reforçar a dúvida de ambos do porquê de cada um estar de lados diferentes da cerca.

As personagens e subtramas são muito bem exploradas: Shmuel conta como foi que chegou ao Campo de Concentração; Bruno explica favoravelmente o porquê da casa de Berlim fazer dele uma pessoa feliz; e a mãe do protagonista não aguenta mais a vida que ela tem após descobrir o que queimam nas chaminés do Campo de Concentração. E tudo isto é emendado de uma forma agradável para o leitor.

Muitos reclamam da falta de informação do Holocausto, em si, no enredo do livro; mas o que poucos entendem é que estamos na mente de Bruno, e o autor respeita as limitações psicológicas do garoto - e físicas também, já que ele não pode passar pelas cercas de casa ou do Campo de Concentração. E, se ele não tem conhecimento sobre o que acontece lá fora, consecutivamente nós também não teremos.

O Menino do Pijama Listrado pode não ter nenhum personagem marcante - de fato-, e ter vários momentos monótonos, mas a trama inteligente envolve o leitor. Se tiver procurando um livro sobre o nazismo, passe longe deste daqui, mas se quiser uma boa estória sobre amizade, O Menino do Pijama Listrado é um ótimo pedido.

Livro: O Menino do Pijama Listrado
Autor: John Boyne
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 186